Uma das respostas que mais dou durante as conversations no curso de inglês é "It depends". Ela é sempre uma ótima saída, serve para tudo, principalmente quando se percebe que a pessoa com quem se fala não compartilha muito das mesma idéias que você . O uso é fácil, você expõe dois pontos de vistas diferentes, não conclui nada, não se contrapõe ou indispõe com ninguém e fica todo mundo feliz. =)
A gente também aprende esse uso nas aulas de física do ensino médio. Afinal quem não lembra do professor repetindo trocentas vezes a frase "depende do referencial"?
Porém, esse depende vai muito além das saídas fáceis de uma conversa ou das regras que devemos lembrar nas provas de física. É algo no qual realmente se deveria considerar em diversas situações, nas quais é preferido por nós, na absoluta maior parte das vezes, julgar em valores absolutos, sem meio termo. Sempre preto ou branco, sim ou não. O que acaba gerando inúmeros rótulos, alguns, inclusive, com um quê de preconceito.
Explicando melhor com exemplos aleatórios, são situações análogas as seguintes.
Qual é a melhor faculdade de direito do Rio? A que tem o melhor resultado no exame da ordem ou no ENAD é a resposta natural. Mas dependendo daquilo que você quer seguir, do foco que você quer dá ao seus estudos, a melhor pra você pode não ser a melhor pro seu colega.
Qual a melhor barraca pra acampar? Naturalmente a mais cara, pois possui um material melhor. Mas não adianta pagar a mais cara, com sobreteto até o chão, coluna d'água de pelo menos 1200mm e material de primeira, se você só vai utilizá-la em alojamentos cobertos. Então uma barraca mais simples pode ser melhor pra você, mais barata e mais leve pra sua viagem.
"O cabelo dela é ruim". Se ela gosta e assume o cabelo crespo dela, e está feliz com ele. O cabelo é ruim pra ela?
Como se vê é tudo uma questão de referencial, de ponto de vista. E é essa questão de relatividade, usada para abrir os questinamentos, o principal argumento ao assunto que quero tratar. Quem é inteligente?
Na escola, a partir do ensino fundamental, elegem o CDF da turma. Aquele que senta lá na frente, tem sempre as respostas na ponta da língua, estuda em casa e tira notão. Rótulo esse que vai seguindo ano após ano da sua vida acadêmica. É inteligente aquele que tira boa nota, que passa no concurso e que entra pra faculdade pública. Não é assim?
Eu já fui a inteligente da turma, a CDF. Deixei de ser no ensino médio.
Passei no vestibular. Bom. Talvez eu ainda fosse inteligente.
Entrei na faculdade e apareceram novos gênios, fiquei imersa na minha burrice novamente. Não conseguia decorar os termos em latim, nem os 78(?) incisos do artigo 5° da Constituição. Isso me deixava deprimida e me fazia sentir no lugar errado.
Mas então eu me pergunto sobre essa inteligência tão falada. Será que esse cara inteligente consegue solucionar os pequenos problemas domésticos com a mesma destreza que resolve os da prova? O meu tio consegue...Ele não é formado nem dana...Mas quando colocamos o telhado aqui no corredor da casa, ficou um breu danado, o ambiente ficou super escuro, a luz tinha que ficar ligada durante o dia pra ninguém se estabacar passando ali...Aí numa sacação ele substitui algumas telhas por garrafas pet transparentes cheias d'água, deixando a luz natural entrar. Ele sempre se sai com soluções simples e geniais ao mesmo tempo. Acho ele muito inteligente.
Seguindo a linha de raciocínio, será que o cara que todo mundo fica por aí falando que é inteligente, que conhece lei por lei de cabeça, podendo citar cada vírgula presente nelas, é tão sagaz quando aquele cara ali chegando na menina com um papinho maroto e que no fim leva a gata, sem nem precisar suar? Sério, se eu fosse homem, não ia ter frase decorada que me ajudasse nessas situações. Eu enxergo em todo bom (eu disse Bom!, e não esses aprendizes a malandros que vemos por aí) pegador um homem extremamente inteligente. Você precisar ter o feeling da "presa" (ai que coisa machista), saber qual é o papo que tem que mandar e fazê-lo bem.
Da mesma forma toda a genialidade do melhor da turma pode ignorar a atividade concreta, que une não só os elementos teóricos expostos nos livros, mas outros elementos que aparecem em situações reais. Elementos como pessoas, emoções, realidade social. (Era inevitável, transportei totalmente ao mundo do direito). Acaba existindo um tipo de inteligência técnica e inteligência real. E quando digo real, não intento dizer que a primeira seja de mentira e a segunda verdadeira. Digo real de voltada para absorver a realidade, uma inteligência sensível.
Então foi se abrindo pra mim uma nova percepção de inteligência, a partir da minha análise sobre mim mesma. Entendendo que ao passo que eu não era uma prodígia das leis, também não era a burra que acreditei ser, pois tudo o que era relacionado de alguma forma com contextos sociais, era mais fácil pra mim do que pra outros. E vi que poderia ser simplesmente eu mesma um desses casos de inteligência diferenciada do que é padronizado pelo senso comum. Caiu a fixa de que o inteligente não exclusivamente aquele da nota alta. Esse é apenas mais um inteligente. Mas não faz dos outros menos inteligente, são apenas diferente uns dos outros.
Inteligente é aquele que tem uma qualidade ou uma aptidão natural particular e que a utiliza da melhor maneira para obter resultados satisfatórios. Pode ser uma facilidade pra memorização, uma facilidade pra sentir os ânimos, uma facilidade para falas argumentativas, facilidade de achar soluções pra problemas corriqueiros ou de ter sensibilidade pra realidade.
Não existe uma fórmula pronta. Esses não são valores absolutos como insiste-se em taxar. São sim valores variáveis em objetivos, necessidades e situações. Podendo logicamente haver alguém que é mais capaz em determinado contexto do que o outro. Mas não por isso se deve subestimar aquele ali do canto, porque ainda podemos depender da inteligência dele em algum momento.
Portanto, já chega de rótulos. Está mais do que na hora de todas as pessoas serem encaradas como capazes. Chega de olhares com desprezo ou menosprezo sobre aquilo que é diferente do que foi dito por alguém, não se sabe quem, que era verdadeiro. O mundo deve ser encarado com olhares individuais, olhares que efetivamente sejam fruto de uma concepção própria. É preciso o olhar despido do pré determinado e aberto a todas as possibilidades.
Já chega de limitações com referenciais tão pequenos.
É todo mundo inteligente nessa porra, só depende do ponto de vista. Aumente o seu.