Compro o amor recorrentemente desde criança.
Nas livrarias e nas salas de cinema.
E ainda quando em falta nos estoques, me invadia pela novela das nove, pelos contos de fada, pela sessão da tarde, pela vida dos outros que eu observava. E eu o comprava prontamente. Comprei todas as formas, modelos e tamanhos. Botei fé na idéia, vesti a camisa. Acreditei veemente no amor.
Acreditei no sentimento lindo onde se importa mais em dar do que em receber. Onde outro é o seu mundo e você é o mundo do outro. Acreditei na vontade ininterrupta de estar junto, de compartilhar momentos e experiências. Acreditei no estado de graça única. Acreditei no sublime.
Então cansada de comprar os amores de estranhos que via brilhando nas vitrines por aí, resovil-me por querer um apenas para mim. O pedi de Natal para Papai Noel. Reservei uma das sete ondinhas só pra ele toda virada de ano. Um pedido ao soprar das velas nos aniversários. O desejei a cada cílio esfregado no peito.
E resolvi esperar a encomenda. Até agora. Até hoje, quando ela finalmente chegou e finalmente experimentei o amor que era meu, foi que eu lembrei o quanto eu odeio criar expectativas. Pois o esperado e a realidade quase nunca se encontram. Sobram vazios de decepções.
E da minha experiência concluí que talvez o amor não seja mesmo para mim. Ou melhor, eu não seja para ele. Não tenho o nível de altruísmo necessário para amar alguém. O que me sobra é apenas o egoismo de querer ser desesperadamente amada. E me falta humildade para aceitar o amor que tenho e nao o que quero.
Sim, complicado. Me sobrevém lágrimas, soluços, angústias e desesperos. Nada tão simples, delicado ou prazeroso como aqueles que eu comprei.
Será que a encomenda que demorou tanto a chegar veio com defeito? O que diz o código de defesa do Consumidor?
Posso trocar?
sexta-feira, 9 de dezembro de 2011
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